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Burocracia atrasa acesso de doentes a novas drogas

Especialista em câncer critica a demora na aprovação de pesquisas de remédios feitas com pacientes, que perdem chances de tentar tratamento

No Brasil, leva-se de seis meses a um ano para que o protocolo de estudo da ação de novas drogas em pacientes seja aprovado.

Para o oncologista Paulo Hoff, a demora é grande demais e tem dificultado esses trabalhos, conhecidos como pesquisas clínicas. Nos EUA, o prazo de aprovação vai de três a seis meses.
"Buscamos um tempo de quatro meses. Não estamos pedindo muito."

Folha - Em que implica a demora para a aprovação?
Paulo Hoff - Em um estudo que inclui EUA, Austrália, Canadá e Brasil, por exemplo, o Brasil é o último país a aprová-lo. Isso dá uma menor oportunidade para que possamos incluir nossos pacientes. China e Brasil são os países que mais demoram.

O Brasil é conhecido por isso?
Sim, e algumas empresas farmacêuticas estão deixando de oferecer participação a cientistas brasileiros em estudos. O trâmite é longo, há desgaste físico e emocional.

O que isso significa, do ponto de vista dos pacientes?
Infelizmente, 40% dos pacientes com câncer ainda morrem da doença porque não existe uma medicação adequada. Novas drogas que irão ajudar os pacientes a viver mais ou se curar virão de pesquisas clínicas. É realmente desejável que o tempo de trâmite seja reduzido.

Qual é o papel do governo brasileiro nessa história?
Há uma boa vontade do governo brasileiro de ajudar no desenvolvimento de novas drogas. Criar um remédio do nada custa de US$ 800 milhões a US$ 1 bilhão. É muito difícil um governo fazer isso. Ao menos num futuro próximo, a participação da indústria vai ser importante.

Em que ponto as pesquisas emperram no país?
Há três fases de pesquisa. Na fase 1, são estudadas drogas nunca usadas em humanos. São a "Fórmula 1" da pesquisa. Esses estudos incluem pouquíssimos pacientes e demoram pouco tempo.
A fase 2 inclui cerca de 40 pacientes, drogas novas, mas conhecidas. A fase 3 são grandes estudos com milhares de pacientes para confirmar se funciona. Acabamos escolhidos para a fase 3, porque não importa tanto o tempo de demora.
O problema é que os cientistas brasileiros teriam mais benefícios se pudessem receber estudos de fase 1 e 2.

O Brasil é um bom local para pesquisas clínicas?
Somos atraentes porque somos miscigenados. Também temos meio milhão de casos de câncer por ano e um corpo de investigadores de muito bom nível. Se trabalharmos o aspecto regulatório, seremos um dos líderes.

Qual é o argumento para a atual burocracia?
Existe uma preocupação do governo de manter a ética e de que o Brasil não seja usado como cobaia no mau sentido. Há receio da influência da indústria farmacêutica no processo. E não sou contra nada disso. Só acho que temos de achar uma maneira de agilizar o processo.

Como está a discussão com o Ministério da Saúde?
Foi levantada a ideia de criar mecanismos de aprovação mais rápidos para estudos com pacientes que corram risco de morte, mas ainda não é oficial.

Como o "fast track", que ocorre nos EUA, uma autorização mais rápida para alguns perfis de pacientes?
Sim. Para mim, essa seria não a solução final, mas ajudaria imensamente. Também é preciso aceitar que os comitês regionais de ética, que atuam nas instituições, estão fazendo um bom trabalho. Assim, podemos descentralizar a avaliação de Brasília e agilizar o processo.

A discussão é de todas as áreas da medicina?
Sim. Uso o câncer porque é dramático, os pacientes morrem. Mas a nossa comunidade científica é muito forte. Não somos mais um país em que a indústria vai trazer estudo e trocar por miçanga.
Os brasileiros participam da discussão, dos desenhos dos protocolos. Temos até a posição de destaque em algumas áreas. A oncologia brasileira é a mais forte da América Latina.

Essa força é subutilizada?
Temos potencialidade para usar muito mais. Para ser justo, preciso dizer que o esforço do governo é sempre em prol do paciente. Mas estamos errando na dosagem.

Pacientes querem participar?
Muitos pacientes já chegam perguntando por pesquisas. Eles trazem folhas impressas da internet e dizem "olha, tem a droga X, parece que é muito boa. Vocês estão estudando esse remédio aqui?"

É comum pacientes buscarem projetos no exterior?
Não é raro. Até nosso vice-presidente foi buscar uma alternativa nos EUA, não foi?

Fonte: Folha de S.Paulo

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